Uma das idéias mais seminais de Elise Boulding, quaker especialista no campo dos estudos e pesquisas sobre Cultura de Paz, é a de que devemos ‘imaginar o futuro’ como um caminho efetivo para sair do isolamento e de uma atitude defensiva e participar na construção de uma cultura global tolerante e pacífica. Boulding propõe o uso da imaginacão social colocado no contexto do que ela chama ‘200 anos do presente’, ou seja, a idéia de que devemos entender que nós vivemos em um espaço social que alcança o passado e o futuro.
Nessa mesma idéia também inscreve-se The Moral Imagination: the Art and Soul of Building Peace, livro do menonita John Paul Lederach, importante teórico e ativista do campo da Resolução de Conflitos. Lederach usa o termo ‘imaginação moral’ para designar a capacidade de perceber além e mais profundamente do que vêem nossos olhos e a capacidade de dar à luz algo novo que no seu próprio surgimento transforma nosso mundo e o modo como vemos as coisas. Ou seja, a capacidade de imaginar e gerar respostas e iniciativas construtivas aos desafios e ciclos enraizados nas realidades desencorajadoras do cotidiano.
Seguindo a proposta de Boulding e Lederach, gostaria de convidar você a fazer comigo um exercício de imaginação moral em relação à presença evangélica no Brasil vis-à-vis aos desafios reais enfrentados pela maioria da população brasileira. A opção aqui não é, obviamente, de fazer um exercício religioso, do tipo que identifica a expansão da religião evangélica com o alcance do Evangelho de Jesus em termos de “números de convertidos” ou de “igrejas plantadas”, mas de pensar o alcance missionário evangélico na direção de mudanças comportamentais, atitudinais e estruturais na vida brasileira.
Importante considerar para nosso exercício de imaginar o futuro a idéia de Boulding a respeito da realidade presente: o presente é moldado pelo passado e as mudanças ocorrem processualmente ao longo de gerações (por isso ‘200 anos do presente’). Nesse sentido, é importante ter em mente que há 100 anos atrás o protestantismo completava seu primeiro centenário no Brasil. A chegada dos imigrantes anglicanos (1810, com a Abertura dos Portos) e luteranos (1818) significou um ponto de inflexão no projeto de um Brasil moderno. Esperava-se que o protestantismo recém-chegado pudesse dar uma contribuição fundamental para esse processo na expansão das liberdades e do espírito empreendedor. Em 1908, o projeto liberal-republicano brasileiro já estava firmemente estabelecido, ainda que com os vícios da nossa elite e de um sistema fortemente excludente. Também estavam firmemente estabelecidas, e em plena expansão, as principais denominações protestantes históricas como batistas, presbiterianos, metodistas e congregacionais, além das já mencionadas luterana e anglicana.
Não pretendo retomar aqui a história da presença protestante no país por completo mas acho importante destacar dois fatos importantes em relação à sua influência na sociedade brasileira: 1) os valores modernos que o protestantismo supostamente aportaria ao Brasil foram comprometidos pelo caráter anti-católico, quase estritamente proselitista, doutrinariamente moralista, com pouca capacidade de inculturação e ênfase numa soteriologia excessivamente individualista e desencarnada das igrejas históricas; 2) os pentecostais, que dominaram a cena a partir da década de 1970 e levaram a mensagem evangélica às massas, estavam mais marcadamente imersos na cultura evangélica do pré-milenismo dispensacionalista estadunidense do início do século XX. Embora pesquisas demonstram que sua presença nas periferias muda o comportamento das pessoas indicando proximidade aos valores modernos, seu impacto é, por isso mesmo, individualizador e sem projeto de transformação estrutural.
Contrariamente a esses dois fatos que apontariam para um diagnóstico pessimista, é bem verdade que a consolidação do pluralismo religioso no Brasil com a defesa da liberdade religiosa sempre encontraram largo espaço na presença protestante no espaço público. É bem verdade também que houve ensaios em alguns momentos da histórica brasileira dos últimos 120 anos de uma abertura para um papel relevante na construção da nação no sentido democrático e cidadão. No entanto, seria desonesto dizer que o protestantismo teve um papel destacado no avanço dos valores democráticos e republicanos no Brasil.
Por isso mesmo, me proponho a fazer um exercício de pensar o papel que podemos ou devemos ter no presente e no futuro do país na medida em que vamos ganhando densidade demográfica. Como exercício de imaginação moral, o que escrevo é tributário daquilo que muitos já tem ensaiado dizer, mesmo que de forma assistemática, em suas mensagens e escritos. Ao mesmo tempo, está aberto para redefinições e contribuições. Começemos, então a imaginar uma nova realidade que oriente nossas ações. Te convido a …
Imaginar que um verdadeiro “avivamento de relevância” marcará toda uma geração de brasileiros para quem ser evangélico significará fidelidade ao evangelho de Jesus de Nazaré e nada mais do que isso.
Imaginar que nossa mensagem e testemunho apontará para uma nova realidade, uma transformação que afetará todas as dimensões da vida brasileira resultado do compromisso com o Deus que ama a justiça, o direito e a compaixão.
Imaginar que as milhares de igrejas espalhadas pelo país se tornarão agentes de paz, de justiça e de cuidado com a criação como tarefa essencial e constitutiva de ser ’sal da terra’ e ‘luz do mundo’. Que em cada cidade e bairro do país onde existir uma comunidade de cristãos, eles denunciarão a miséria e pobreza, a fome, a corrupção, a violação dos direitos humanos, a violência, e toda forma de injustiça e desigualdade;
Imaginar que os milhões de cristãos não se conformarão com os sistemas idólatras que entronizam o dinheiro, o poder e o sucesso numa perspectiva individulista, mas trabalharão para que a solidariedade, a dignidade e a integridade sejam os valores primordiais na sociedade brasileira e que a riqueza e felicidade esteja ao alcance de todos;
Imaginar que o denominacionalismo não fará mais sentido porque aprenderemos a viver como irmãos e a respeitar nossas diferenças de doutrina, de liturgia, de governo, etc. Imaginar que aprenderemos a celebrar e reconciliar nossas diferenças no amor de modo que movimentos de unidade visível não serão anátemas mas respostas sinceras à oração de Jesus e ao ministério de reconciliação que Deus nos incumbiu;
Imaginar que as crianças serão prioridade não apenas nas escolas dominicais das milhares de igrejas espalhadas pelo país para receberem instrução equilibrada sobre a espiritualidade bíblica; as igrejas serão defensoras incansáveis dos direitos das crianças a terem uma vida digna de modo que na cidade ou no campo, nas diferentes regiões do país, nas diferentes etnias, encontremos todas as crianças sorrindo, estudando e brincando;
Imaginar que nossas igrejas serão espaços abertos e acolhedores para todos os que buscam sentido e descanso, conselho e amizade, afeto e compaixão, companheirismo e uma família alargada; nossas igrejas serão comunidades de amor compassivo e de graça perdoadora para os desesperados e perturbados, para os desacreditados e reincidentes;
Imaginar que a violência, em todas as suas formas, será firmemente enfrentada de modo que as igrejas se tornarão referência de uma cultura de paz e valorização da vida e como centros irradiadores de paz e espaços de aprendizagem de mediação e transformação de conflitos na família, no trabalho, na escola, no bairro, na cidade.
Imaginar que as mulheres serão valorizadas como iguais nas igrejas, que por sua vez se tornarão promotoras da igualdade entre homens e mulheres em casa, no trabalho, na escola, na sociedade. Imaginar que as mulheres não sofrerão nem discriminação nem violência nas comunidades onde os evangélicos tiverem uma presença expressiva.
Imaginar que nosso compromisso missionário se traduzirá no compromisso de cada cristão e cristã a ser portador vivo da mensagem evangélica de modo que o anúncio naõ seja o único e mais valorizado aspecto da missão mas inclua o diálogo, o testemunho de vida, a promoção da justiça, da paz e o cuidado com a criação.
Imaginar que….